Redução de danos no tabagismo: “É a descoberta revolucionária em saúde pública que o mundo estava esperando”

A afirmação do médico canadense Mark Tyndall vem de um lugar de ciência e de luta. Doutor em Medicina, em Ciências e membro do Membro do Colégio Real de Médicos do Canadá (Royal College of Physicians of Canada), possui mais de três décadas de experiência em pesquisa e defesa de direitos com foco em saúde global, uso de drogas, HIV e redução de danos. Foi Diretor Executivo do Centro de Controle de Doenças da Colúmbia Britânica e Vice-Diretor Provincial de Saúde, formou-se em medicina pela Universidade McMaster, fez residência em doenças infecciosas na Universidade de Manitoba e doutorado em saúde pública pela Universidade Harvard.

Atualmente, é professor na Universidade da Colúmbia Britânica, Canadá, e uma voz em defesa da redução de danos no tabagismo. Seus esforços atuais de pesquisa e defesa de direitos estão focados em programas inovadores para reduzir a overdose/intoxicação por drogas por meio de programas de fornecimento seguro de drogas e acelerar a transição global dos cigarros convencionais para o vaping e outros produtos de nicotina mais seguros.

Na entrevista de estreia deste espaço, o especialista explica o que é a redução de danos no tabagismo, porque essa prática é tão importante e a falta de compreensão para que ela aconteça.

1 – O que é redução de danos?
É assim que abordamos tudo o que fazemos em saúde pública. Analisamos situações que podem resultar em lesões ou consequências indesejáveis para a saúde e fazemos recomendações para reduzir esses danos. Se acreditamos firmemente nisso, criamos políticas e leis que incentivam o uso dessas medidas. Há muitos exemplos: cintos de segurança, limites de velocidade, capacetes de motociclista, botas com biqueira de aço, capacetes de construção, proteção ocular, suspensórios protetores, vacinas, inspetores de alimentos. Todas essas são intervenções que reconhecem que existem riscos e que alguns são inevitáveis. Nosso objetivo é apenas tornar essas exposições inevitáveis mais seguras. No contexto das drogas, a redução de danos se tornou uma disciplina própria. Exemplos incluem programas de troca de seringas, manutenção com metadona, locais de injeção supervisionada e programas de fornecimento seguro. Nesses casos, as intervenções de redução de danos são controversas porque a exposição (uso de drogas ilícitas) é considerada desnecessária e o risco é atribuído a uma má escolha.

2 – Como ocorre a redução de danos no tabagismo?
Produtos alternativos à nicotina são a própria definição de redução de danos. Você pega os cigarros, que causam todo tipo de problemas de saúde, e oferece alternativas que essencialmente eliminam esses riscos.

3 – Qual a importância da redução de danos no tabagismo?
É a descoberta revolucionária em saúde pública que o mundo estava esperando. Uma forma segura de usar nicotina. Ela apresenta às pessoas uma escolha prática: parar de usar cigarros e nicotina ou simplesmente parar de fumar e continuar usando nicotina.

4 – O que dizem as evidências científicas?
Você não encontrará um único estudo que não mostre que o vaping ou outros produtos com nicotina são mais seguros do que fumar cigarros. Você não encontrará um único estudo que mostre que os produtos “padrão” para parar de fumar superam o vaping. Embora a literatura científica seja fortemente tendenciosa contra a nicotina segura, as evidências são claras.

5 – Quais são os resultados práticos?
Ninguém precisa morrer por usar nicotina. Existem maneiras seguras e prazerosas de usar nicotina – como bens de consumo, todas são muito superiores aos cigarros.

6 – O que estamos perdendo, como sociedade, por não reconhecermos a redução de danos no tabagismo?
A epidemia de tabagismo em curso e seus 8 milhões de mortes por ano.

7 – Como médico, como o senhor avalia o papel desses profissionais no combate ao tabagismo por meio da redução de danos? E por que existe tanta resistência em adotar essa abordagem?
Essa é a minha maior dúvida. Como os médicos podem se deparar com um fumante e não oferecer uma alternativa mais segura? Trata-se de falta de interesse, de não considerar alternativas e do estigma direcionado aos fumantes.

8 – O senhor publicou recentemente o livro “Vaping: Behind the Smoke and the Fears” (Cigarros: Por Trás da Fumaça e dos Medos). Quais são os medos mais comuns e qual o antídoto?
Precisamos trabalhar para desmistificar toda a desinformação.

9 – Qual é a sua mensagem para que as pessoas possam entender melhor a redução de danos?
A redução de danos aplicada ao tabaco não é um conceito difícil. A falta de apoio ou promoção dessa prática está diretamente ligada à inércia e a uma extensa campanha de desinformação para proteger a agenda de controle do tabaco e, em última instância, a indústria do cigarro.

Mark Tyndall, MD, ScD, FRCPC, é professor na Universidade da Colúmbia Britânica, Canadá. Anteriormente, foi Diretor Executivo do Centro de Controle de Doenças da Colúmbia Britânica e Vice-Diretor Provincial de Saúde. Formou-se em medicina pela Universidade McMaster, fez residência em doenças infecciosas na Universidade de Manitoba e doutorado em saúde pública pela Universidade Harvard. Possui mais de três décadas de experiência em pesquisa e defesa de direitos com foco em saúde global, uso de drogas, HIV e redução de danos. É autor de mais de 250 publicações revisadas por pares, apresentou uma palestra no TEDMED em 2017 sobre redução de danos e lançou um novo livro, “Vaping: Behind the Smoke and Fears” (Vaping: Por Trás da Fumaça e dos Medos). Seus esforços atuais de pesquisa e defesa de direitos estão focados em programas inovadores para reduzir a overdose/intoxicação por drogas por meio de programas de fornecimento seguro de drogas e acelerar a transição global dos cigarros convencionais para o vaping e outros produtos de nicotina mais seguros.

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